EDITORIAL REVISTA DICAS N.18

ESTÉTICA

Tive esta experiência fantástica esta semana. Uma paciente vinda de uma ONG para um tratamento de implantes na nossa pós-graduação em Curitiba necessitava também de restaurações estéticas; ela era deficiente visual e não enxergava. A vi na cadeira já com um aluno. Cavidades enegrecidas por cáries em todos os dentes anteriores, como há tempos não via.

Por um impulso me sento na cadeira; imaginei que o aluno demoraria demais e talvez não fosse conseguir terminar o caso. Começo e termino em 3 horas sem pausa; realmente acredito que ficou bom mas não quis fotografar demais o caso por achar mais importante finalizar rápido e bem.

Termino o caso e os alunos me chamam; a paciente queria me agradecer. Ela nao abre os olhos perfeitamente por algum problema de formação talvez. Ela estava meio que lacrimejando e me deu um abraço. Disse que estava feliz demais e sentia com a língua o polimento e forma dos dentes. Ela sentiu a estética sem enxergar realmente. Ela sentiu literalmente a estética.

Ela sai sozinha; ia pegar o ônibus para ir para uma cidade vizinha e não veio com ninguém. Ela falou que sempre se “vira” sozinha e tudo estava ótimo. Fiquei pensando nisso por um bom tempo, nesta paciente mas nos outros pacientes que compulsivamente buscam lentes de contato para casos que literalmente não necessitam. Senti, confesso, uma certa futilidade nos tratamentos estéticos atuais.

Acho que esquecemos da nossa função na odontologia estética. Devolver algo perdido, melhorar DEFEITOS e PROBLEMAS.

Vejo uso de toxina botulínica e remoção de tecido adiposo facial e acho que prefiro não ser dentista no momento. Gostaria de dormir e ser acordado após tudo isso. Muitos amigos bastante conceituados (Scopin entre eles) tiveram a mesma sensação. Mas vou deixar claro, não tenho nada contra os procedimentos citados. Cada um tem um guia de consciência. Eu mesmo estava perdendo a vontade de ser dentista nestes tempos de “lentes de contato”. Sei que ofendo muitos mas não é minha intenção, de verdade. Estou mais relatando o que minha alma confessa após certo tempo de odontologia (um bom tempo até).

Mas eis que este caso me faz lembrar por que fiz odontologia; tive uma sensação no fundo do meu coração. Acho que podemos melhorar coisas para aqueles que necessitam realmente; sermos bons dentistas para reais pacientes. Existe saída para a Odontologia Estética e temos esquecido. Usar nossa habilidade mais para saúde do que para marketing. Curar mais e mostrar menos posts com pacientes famosos e jogadores de futebol.

Esta paciente me trouxe um presente, me devolveu a odontologia que tinha perdido no meio de Facebook e Instagram.
E você, no fundo do coração, o que sente?

 

Ronaldo Hirata
Editor-Chefe Revista DICAS

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